ETERNO VINICIUS

O Poeta, que completaria este ano 90 anos, recebe homenagens de amigos e admiradores

Vagner Fernandes

Foi alertando sobre Ossanha, orixá conhecedor do segredo medicinal das ervas, que Vinicius de Moraes entregou de bandeja que, como uma entidade, também detinha conhecimento metafísico para a cura de certos males da alma. Sobretudo para aqueles em que se tornou especialista por circunstância de sua genialidade poética: as dores de amor. Com a sabedoria de um orixá, o poeta, que completaria hoje 90 anos, avisava que ''homem que vai atrás de mandiga de amor vai amar, vai sofrer, vai chorar''. Mas ao mesmo tempo em que recomendava cautela em versos pontuados por predestinações, Marcus Vinitius Mello Cruz de Moraes não cumpria lá muito à risca boa parte dos preceitos religiosos como um bom filho de Oxalá. Era indisciplinado e imprevisível, embora adorasse previsões. Dias antes de morrer, em almoço com amigos durante um passeio por Guaratiba, descobriu que uma mãe-de-santo estava sentada à mesa. Debilitado e pressentindo a hora da partida, ele, um eterno apaixonado pelo Candomblé, não titubeou: ''Diga a verdade: vou morrer?'', perguntou o poeta. ''Claro que você não vai morrer, Vinicius. Você é imortal'', respondeu a ialorixá. Ela tinha razão.

Sempre foi assim. Vinicius de Moraes era a imprevisibilidade em pessoa, a ponto de suas filhas, ex-mulheres e amigos não saberem responder o que ele faria hoje para celebrar uma idade tão significativa. Uma pergunta banal, para a qual ninguém teve resposta.

- Não sei o que Vinicius faria. A gente comemorou muito pouco o aniversário dele. Primeiro, porque viajava muito; segundo, porque não há tradição em celebrar aniversários na nossa família. Não me recordo de uma grande festa de aniversário para Vinicius, embora ele fosse extremamente festeiro - conta Suzana de Moraes, a filha mais velha do autor de Soneto da separação.

Sarcástico, moleque, amigo, pilequeiro (com todo o respeito), Vinicius fazia do humor e da generosidade molas propulsoras para o lançamento à vida. Nasceu na Gávea, um dos bairros preferidos da elite carioca, mas gostava mesmo da boemia underground, muito antes de tal estrangeirismo ganhar conotação vanguardista e se tornar, no dicionário dos modernos, sinônimo de hype. Quer, entretanto, coisa mais hypada do que as antologias, os sonetos e as canções de Vinicius? O carioca, que dedicou a vida às paixões torrenciais (teve nove mulheres) e às palavras, era vanguarda pura. Ele é o pai da Tropicália, dos parangolés de Hélio Oiticica, dos transes de Glauber Rocha, dos punks, da new wave do BRock, dos clubbers da Bunker 94. Sempre foi referência para todas as tribos, a fonte que nunca seca.

- Vinicius significa renovação constante. Sinto muita falta do amigo, dos papos na madrugada em torno da mesa de um restaurante, das viagens, das reuniões improvisadas em quartos de hotel, da brincadeira inteligente, da elegância com as mulheres... Era bom conviver com a sua generosidade. Ele proporcionava tudo isso aos amigos - recorda Toquinho.

A amizade entre os dois é, até hoje, um dos exemplos mais comentados e admirados na cena artística brasileira. Toquinho e Vinicius trabalharam juntos durante 11 anos. Compuseram cerca de 100 canções, lançaram quase 30 discos, fizeram mais de mil shows.

- Tudo em clima de cordialidade e descontração. Nada era sacrifício nessa verdadeira missão de nos aventurarmos em favor da música e do prazer de estarmos lado a lado, cercados de amigos e fazendo aquilo que amávamos. Ainda hoje parece que Vinicius está na Europa passando um tempo e que vai voltar um dia - sublinha Toquinho, o amigo que encontrou Vinicius, gélido e pálido, agonizando na banheira, na triste manhã de 9 de julho de 1980.

Quem teve o privilégio de desfrutar da intimidade do velho Vina (como carinhosamente Vinicius era chamado por amigos) jamais se esquece de sua doçura quase infantil, do tesão arrebatador que sentia pela vida e também de seus conflitos. O maior deles: o álcool. Depois das mulheres, o uísque era a maior paixão do poeta. Ou teria tido o mesmo peso? Difícil saber. A bebida que tantas vezes o relaxou, abrindo-lhe a consciência para dissertar sobre cenas do cotidiano ou construir densas reflexões sobre a existência, foi a mesma que o destruiu aos 67 anos. Mas talvez fossem exatamente esses paradoxos os elementos que fascinavam o mulherio à sua volta. Um poeta sedutor, um gênio aparentemente em conflito, um homem misterioso. Vinicius era uma espécie de François Truffaut da MPB. Um homem que amava as mulheres e que não sabia viver longe delas. Tati de Moraes, Regina Pederneiras, Lila Esquerdo Bôscoli, Lucia Proença, Nelita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodriguez e Gilda de Queirós Mattoso. Essas integram a lista oficial: com elas, o poeta foi casado de fato. No meio do percurso, entre um casamento e outro, houve affairs, casos extra-conjugais como o que Vinicius viveu com a atriz Neusa Borges. Valia tudo por uma grande paixão.

- Ele tinha um absurdo frescor de espírito. Sabia viver a vida como ninguém e se entregava ao amor. Não gostava de rotina. Nem a barba ele começava a fazer pelo mesmo lugar. Um dia iniciava pelo lado esquerdo, no outro pelo direito. Acho que, justamente por essa aversão à rotina, ele tenha tido tantas mulheres - avalia Gilda Mattoso, última a viver com o poeta.

Vinicius era uma vítima tão fiel dos próprios sentimentos que jamais se importou, por exemplo, com a enorme diferença de idade entre ele e aquela com quem dividia o mesmo teto. Quando se conheceram, Gilda tinha 25 anos e ele, 64.

- Fiquei com medo de me decepcionar. Estava me casando com o meu ídolo. Vinicius era só alegria, não teve qualquer receio no início. Depois ele começou a questionar. Dizia que estava velho, que iria adoecer e que eu teria de ficar presa a ele. Mas eu achava tão maravilhoso estar casada com um ídolo que não queria perdê-lo nunca - diz Gilda.

Ainda hoje, 23 anos depois de sua morte, Vinicius continua a exercer o mesmo fascínio sobre as mulheres como outrora. Há dois domingos, num show no Espaço Cultural Toca do Vinicius, em Ipanema, o trecho situado entre as ruas Visconde de Pirajá e Barão da Torre ficou praticamente intransitável. Mais de 400 pessoas se aglomeravam em frente à loja para assistir ao ensaio geral de uma homenagem ao poeta que será prestada logo mais, no mesmo local. A maior parte do público era composta por mulheres. Depois de um dia de sol nas areias de Ipanema, as amigas Juliana Frota, 19 anos, Tatiana Holanda, também de 19, e Helena Carvalho, de 20, baixaram em frente à Toca. Fã incondicional do poeta, Tatiana, estudante de Psicologia da UFRJ, foi categórica:

- Lógico que teria um affair com o Vinicius! Tipo assim, gosto muito do Chico (Buarque) também... Ah, mas namoraria os dois. Imagina a cena...

Juliana, aluna de Economia da Uerj, endossou:

- A gente curte bossa nova, os clássicos da MPB. Somos da antiga.

Helena, colega de Tatiana na Psicologia, concluiu:

- Vinicius é tudo.

É... Vinicius é tudo mesmo. Tão tudo que suas canções são capazes de fazer qualquer um perder a vergonha. De dia, à noite, em casa ou na rua. O administrador de empresas Pedro de Andrade Neto, 68 anos, é um refém da obra do poeta. No show da Toca, saiu dançando em plena calçada da Rua Vinicius de Moraes, quase em transe. E teve quem o acompanhasse.

- O que posso dizer de um cara que conseguiu mandar em nove mulheres? Todas as vezes em que cruzava com o Vina no Garota de Ipanema, ele repetia: ''Pedro, mulher é só levar na conversa''. Tomamos muitos porres juntos - lembra emocionado.

Não foi bem na conversa, mas no assovio, que Vinicius, ao lado de Tom Jobim, atraiu aquela que se tornaria a mulher mais famosa de sua obra. Helô Pinheiro, na listagem de musas do poeta, é uma exceção, já que tinha preferências por morenas. Quem narra a história é o garçom Arlindo Costa de Faria, 64 anos, que, há pelo menos 40, dedica-se ao balcão e às mesas do bar Garota de Ipanema.

- Ela passava e todo dia Vinicius e Tom não hesitavam em mexer com a Helô. Até que um dia ela veio e se tornaram amigos - descreve.

Por 17 anos Arlindo foi o garçom preferido da dupla famosa. Para Tom, chope garotinho. Para Vinicius, uísque. Uma, duas, três, quatro, cinco doses. Era praxe.

- Geralmente, ele parava na quinta. Vinicius bebia, bebia e não ficava bêbado. Era impressionante. E sabe que nunca vi uma confusão entre eles? Tinha dias em que a dupla reunia todo mundo aqui: Bonfá, Baden, Toquinho, Chico, Miúcha. Todos bebiam e nunca presenciei uma briga em meio àquela bebedeira - observa Arlindo.

Carlos Lyra, outro dos parceiros de fé do poeta, explica:

- Na verdade, nossos laços de amizade eram muito fortes. Vinicius era pacificador. Não havia tempo para briga, só para cantorias. Aliás, a única briga a que assisti por causa de bebida, naquela época, foi na casa do Bené Nunes. Estávamos todos lá reunidos, quando o Newton Mendonça, já meio de porre, começou uma discussão infinda com o João Donato - narra.

Miúcha emenda:

- Bebíamos em quantidades industriais, como o Tom dizia. Era muita felicidade, muito prazer, muita gozação - lembra, rindo.

Lyra aproveita para desfazer mal-entendidos:

- Há muitas lendas criadas por aí. Eu, por exemplo, não freqüentava o Garota de Ipanema. E o Vinicius, por sua vez, nunca participou das reuniões na casa de Nara (Leão), assim como o Tom. Quem ia à casa de Nara éramos eu, o Bôscoli e o Menescal - enfatiza.

Amigos, amigos, negócios à parte, Vinicius sempre despertou interesse de comerciantes e empresários por causa de sua obra e das inúmeras histórias que disseminaram por aí a seu respeito. Seu nome é sinônimo de dinheiro. O Garota de Ipanema, por exemplo, muito antes de ser batizado como tal, no fim da década de 60, chamava-se Veloso. A clientela era boa, mas não tanto quanto a angariada após a mudança de razão social.

Em 1974, a dupla Manoel Inácio e Manoel Peralta Capão comprou o bar e não largou mais o negócio. Quando tornou-se dono do estabelecimento, Inácio tinha um Fusca 66 e morava no Méier. Hoje tem carro importado e mora na Barão da Torre, Ipanema. A trajetória de Peralta não é diferente. Andava num Corcel II no início da sociedade, e, atualmente, circula de importado. De Bonsucesso pulou para a Barra da Tijuca. E mais: o Garota de Ipanema foi o carro-chefe para a abertura de todas as outras casas da série: Garota da Gávea, Garota da Tijuca, Garota da Urca, Garota do Leblon, Garota da Penha. Todos esses bares são conquistas da dupla pós-Garota de Ipanema. Até o Vinicius Au Bar é, agora, de propriedade dos dois empresários. Comercialmente falando, o nome de Vinicius ainda rende.

Responsável pela administração dos bens deixados por Vinicius, Luciana de Moraes, a quarta filha do poeta, fala sem problemas das questões comerciais referentes à obra do pai, mas não destaca números.

- Nenhum de nós é milionário. Temos um padrão de vida bom à custa de muito trabalho. Vinicius não é essa mina de dinheiro que todos imaginam. Suas coletâneas não vendem 1 milhão de cópias, mas há uma constância na comercialização de suas obras. Há uma estabilidade neste mercado que nos permite viver bem - diz.

Neste ano em que se celebram nove décadas de nascimento de Vinicius, uma série de lançamentos e comemorações corre desde o início do ano. Site, concurso de sonetos, discos, peça de teatro, especial de TV, documentário, reedição de obras, shows, livro de correspondência, tudo para relembrar o poetinha (apelido do qual ele não gostava), que começou a vida como auxiliar de escritório e chegou a diplomata, depois de ser funcionário do Instituto dos Bancários, advogado, censor cinematográfico e jornalista.

Fã e pesquisador da obra do poeta e fundador do Espaço Cultural Toca do Vinicius, em 1993, o professor de Literatura Carlos Alberto Afonso, 53 anos, também planeja homenagens ao artista. E ressalta a importância da manutenção do nome de Vinicius no processo de democratização da literatura no Brasil.

- As homenagens são fundamentais, mas é preciso mostrar aos jovens de hoje quem foi Vinicius de Moraes. Apesar de ter um espaço que se tornou referência por causa do poeta, não lanço mão disso para ganhar dinheiro. Meu interesse é cultural. Olha que maravilha - diz Carlos, antes de apresentar uma foto inédita de Vinicius, de baby-doll, em festa no navio Andrea C., durante passagem pelo Equador, nos idos dos anos 50.

O registro, sobre o qual nem as próprias filhas tinham conhecimento, é a mais nova aquisição do professor para o acervo da Toca, que já conta, entre outras preciosidades, com mechas de cabelo, óculos e manuscritos originais de canções como Pela luz dos olhos teus.