ANTONIO CARLOS JOBIM

 

Em 1992, Tom Jobim se apresentou, por pouco mais de uma hora, para um público de milhares de pessoas, muito diferente das platéias para as quais havia tocado em mais de 40 anos de carreira. O repertório era restrito a apenas uma canção, Se todos fossem iguais a você, não a parceria com Vinícius de Moraes, mas o samba-enredo que marcou o desfile da Estação Primeira de Mangueira naquele ano. Vestido de branco e tendo à frente um piano da mesma cor, o compositor acenava do alto do carro alegórico para toda a Marquês de Sapucaí, que saudava em peso um dos maiores talentos musicais nascidos no Brasil. A homenagem, que sintetizou na avenida a história de Tom Jobim, tocou-o de tal forma que veio a gravar em 1993 o disco No Tom da Magueira, ao lado da velha guarda da escola.

O desfile da Verde-e-Rosa repassou os principais fatos da vida do filho de Jorge de Oliveira Jobim e de Nilza Brasileiro de Almeida, nascido na Tijuca em 25 de janeiro de 1927, e criado na então pouco habitada Ipanema. O jovem Antônio Carlos Jobim cresceu praticando esportes, nas pedras do Arpoador ou nas áreas verdes que circundavam o bairro. Somente na adolescência passou a se interessar de fato pela música, brincando no piano no qual a irmã Helena estudava. Logo passou a ter aulas com o alemão Hans Joachim Koellreutter, um dos primeiros músicos a introduzir o dodecafonismo no Brasil. Continuou seus estudos com a Lúcia Branco - que viria a ser professora de grandes concertistas como Nelson Freire e Artur Moreira Lima -, que o estimulava a compor.

Entrou para a faculdade de arquitetura, mas abandonou o curso após um ano, voltando a se dedicar exclusivamente à música. Em 1949, casado com Thereza Otero Hermanny, Tom Jobim tornou-se músico profissional, buscando sustento primeiro como pianista da Rádio Clube do Brasil e depois em casas noturnas como Sacha´s, Night and Day, Tasca, Alcazar, entre outras. Varando madrugadas ao piano, Tom percebeu que não poderia criar nada sem mudar de vida. O primeiro filho, Paulo, nasceu em agosto de 1950, época em que Tom já havia abandonado a noite para trabalhar na gravadora Continental, onde fazia alguns arranjos e orquestrações, além de passar para partituras músicas compostas de ouvido por autores que não conhecessem teoria musical.

Na gravadora nasceu a amizade entre Tom Jobim e Radamés Gnatalli, famoso compositor e pianista, então arranjador principal da companhia, que adotou Tom como uma espécie de afilhado musical. Trabalhando na continental, teve suas primeiras composições gravadas: primeiro uma parceria com Newton Mendonça, Incerteza, gravado por Mauricy Moura e, depois, Pensando em você e Faz uma semana (com João Batista Stockler), gravadas por Ernani Filho.

A primeira composição de sucesso foi Tereza da praia, parceria com Billy Blanco, gravada por dosi astros da época, Lúcio Alves e Dick Farney. Ao lado de Blanco lançou em 1954 Sinfonia do Rio de Janeiro, um álbum de 10 polegadas com composições da dupla, gravadas por estrelas do rádio, como Elizeth Cardoso, Dóris Monteiro, Jorge Goulart, Nora Ney, Emilinha Borba, além dos já citados Lúcio e Farney.

Em 1956, foi apresentado ao poeta e diplomata Vinícius de Moraes pelo jornalista Lúcio Rangel, que não imaginava estar promovendo um dos maiores encontros da música brasileira. Vinícius, já consagrado como poeta, precisava de alguém para compor os temas de uma peça que traria para o universo carioca o mito grego de Orfeu. O músico, que à época dizia "andar com uma pastinha de arranjos debaixo do braço, competindo com o aluguel", aceitou de pronto o convite. Entre as músicas compostas para Orfeu da Conceição, estava alguns dos futuros clássicos da dupla, Se todos fossem iguais a você e Lamento do morro.

Em 1958, um ano depois do nascimento de Elizabeth, a segunda filha com Thereza, a cantora Elizeth Cardoso grava outras parcerias de Tom e Vinícius, como Caminho de pedra, Luciana e Modinha , no antológico álbum Canção do amor demais. O disco também contava com um músico baiano que havia criado uma batida sincopada ao violão, que o transformava em um instrumento ao mesmo tempo ritmico e harmônico: João Gilberto. O LP foi considerado o marco inicial do movimento que colocaria o Brasil na vanguarda da produção musical do planeta, a bossa nova. No mesmo ano, a música Chega de saudade foi gravada em um compacto por João Gilberto, que em 1959 a regravou em um álbum homônimo, marcando uma ruptura com a música feita no Brasil até então. Logo o gênero conquistaria o mundo, começando pelo Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, realizado em Nova York, em 1962. No mesmo ano, Tom compôs com Vinícius Garota de Ipanema, que se tornaria a música brasileira mais executada em todo o planeta, uma espécie de segundo hino do país no exterior. O reconhecimento no Brasil e no mundo fez o compositor e músico gravar como cantor pela primeira vez, em 1963, no álbum Caymmi visita Tom, ao lado de Dorival Caymmi.

A carreira no exterior se consolidou com o lançamento de álbuns como The composer of Desafinado plays (1963) The wonderful world of Antônio Carlos Jobim (1964) e A certain Mr. Jobim (1965) Até que em 1967 o brasileiro recebeu um convite irrecusável para gravar com o maior astro da música norte-americana, Frank Sinatra. A dupla gravou em Los Angeles Albert Francis Sinatra & Antonio Carlos Jobim - único álbum da carreira de Sinatra gravado exclusivamente com outro cantor - saudado pela crítica americana como o álbum do ano, só perdendo em vendas para o divisor de águas da música pop, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

O ano de 1967 também marcou o início da parceria de Tom Jobim com um jovem talento da música brasileira, descrito pelo maestro como um "rapaz de olhos azuis, que dizem que são verdes, depende da luz do dia", Chico Buarque de Hollanda. Retrato em branco e preto, primeira canção composta pela dupla, inaugurava uma série de temas inesquecíveis, como Sabiá - que conquistou o primeiro lugar na fase nacional III Festival Internacional da Canção (1968) sob as vais das milhares de pessoas que lotavam o Maracanãzinho para torcer pelo hino político de Geraldo Vandré, Pra não dizer que não falei de flores.

Em 1972, Tom iniciou outra parceria memorável, dessa vez entre a sua voz e da cantora Elis Regina, com a gravação de Águas de março, que se tornaria uma de suas músicas mais conhecidas. O tema surgiu durante um retiro no campo, onde compunha os temas do álbum Matita Perê (1973), que aprofundava a ligação de sua música com temas ecológicos. O dueto ganharia destaque no disco Elis & Tom, lançado no ano seguinte.

Em 1977, Tom Jobim separa-se de Thereza e se casa com a jovem fotógrafa Ana Beatriz Lontra, que havia conhecido dois anos antes. A nova mulher passou a cantar na formação vocal que acompanhava Tom, Miúcha, Vinícius e Toquinho em um show realizado no Canecão e registrado em um disco ao vivo, no mesmo ano.

Em outubro de 1979 o maestro celebrou o nascimento de seu terceiro filho, João Francisco, o primeiro com Ana Jobim. O ano seguinte reservava uma emoção oposta a Tom, a perda do parceiro e amigo Vinícius de Moraes, morto no dia 9 de julho, vítima de um edema pulmonar.

Tom Jobim recebeu muitas homenagens na década de 80, desde o Prêmio Shell de 1983 a um especial dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1984 para a estinta TV Manchete, e compôs trilhas para sucessos do cinema, como Gabriela (1982) de Bruno Barreto, e da TV, como as mini-séries O tempo e o vento (1985) e Anos dourados (1986). Em março de 1987 Tom foi pai pela quarta vez, aos 60 anos, com o nascimento de Maria Luíza.

Na década de 90, além do emocionante desfile da Mangueira em 1992, Tom recebeu uma grande homenagem no Free Jazz do ano seguinte, em um show com a participação com as estrelas do jazz Herbie Hancock, Shirley Horn, Ron Carter, Joe Henderson, Gonzalo Rubalcaba e Jon Hendricks. Em 1994, Tom lançaria seu último álbum, Antônio Brasileiro, que contou com a participação de Dorival Caymmi, Sting e da filha Maria Luíza.

Após gravar Fly me to the moon, sua participação no álbum Duets II, de Frank Sinatra, Tom descobriu um tumor maligno em sua bexiga e viajou até Nova York para consultar um especialista. O maestro internou-se no Hospital Mount Sinai e submeteu-se a uma cirurgia no dia 6 de dezembro de 1994. Tom Jobim foi operado, mas dois dias depois, sofreu duas paradas cardíacas que lhe tiraram a vida. Seu corpo chegou ao Rio de Janeiro, onde foi enterrado no cemitério São João Batista, após seguir em cortejo pelas ruas da cidade à qual dedicou a sua própria obra.

 

 

 
 

música