CHICO BUARQUE DE HOLANDA

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VIDEOS Montpellier 21/05/2005

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     Francisco Buarque de Holanda nasceu a 19 de julho de 1944, no Rio de Janeiro, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e de D. Maria Amélia, pianista amadora. Aos dois anos de idade mudou-se com a família para São Paulo. Em sua casa na rua Haddock Lobo, o menino ouvia muito rádio: tinha até um álbum de recortes com fotos de cantores. Cursou o ginásio e o científico no Colégio Santa Cruz, distinguindo-se nas aulas, mas sobretudo no futebol e nas crônicas que escrevia para o jornalzinho da escola. Destacava-se também por sua presença em todas as batucadas que aconteciam no colégio. Foi ainda no Santa Cruz que ele estreou num palco. Com a bossa nova caminhando para o apogeu, teatros, faculdades e colégios organizavam shows nos quais músicos de destaque revezavam com principiantes. Num desses espetáculos, Chico cantou sua composição Marcha para um Dia de Sol. Terminando o científico, entrou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, mas só frequentou até o terceiro ano. Sua turma gostava mesmo era de samba e cachaça. Já na época, Chico Buarque procurava sua definição musical em meio às mais variadas tendências: "Claro que sou influenciado por Noel Rosa, mas me inspirei também em Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Vinicius de Moraes. Até mesmo a música francesa me inspirou, principalmente quanto às letras. Agora, a coisa decisiva para mim, foi o LP Chega de Saudade, do João Gilberto".  

Em 1964, Chico inscreveu a composição Sonho de um Carnaval, defendida por Geraldo Vandré, no festival promovido pela TV Excelsior de São Paulo. Não ganhou prêmios, mas tornou-se conhecido, passando a se apresentar semanalmente nos shows do teatro Paramount e depois no programa o Fino da Bossa, comandado por Elis Regina. Finalmente, lançou um compacto com Olê, Olá e Madalena Foi pro Mar. Ambas sairiam também num LP seu que incluía ainda Pedro Pedreiro que, além de ser considerada um marco pelo autor ("a descoberta de uma forma que era minha"), inaugurava seu filão de música de temática social.

Em 1966, pouco depois de serem lançados esses discos, Chico concorreu com a marcha A Banda ao II Festival de MPB, sob promoção da TV Record. Essa composição, defendida por Nara Leão, e Disparada, de Geraldo Vandré, venceram o popular certame. Foi a glória. Com 23 anos, capa frequente de revistas, ídolo de um público diversificado, com depoimento no Museu da Imagem e do Som e título de Cidadão Paulistano, Chico tornava-se, no dizer de Millôr Fernandes, "a única unanimidade nacional". Acresce que Chico chegara à MPB num momento em que a bossa nova procurava se reencontrar com a velha guarda. E ele, unindo a música que marcara sua adolescência com a batida diferente do violão de João Gilberto, conseguiu, quando imperava o iê-iê-iê, tornar-se o grande sucesso nacional. Embora não se evidenciasse, Chico era um participante interessado na construção de seu tempo. A unanimidade decorria da alegria contagiante de suas composições: mesmo as mais nostálgicas infundiam a idéia de que, em breve, a banda - metáfora da alegria fraternal - viria para ficar. Ou seja: a imagem do bom moço de belos olhos verdes estava sendo vestida em Chico à sua revelia. E isso ficou bem patente com seu trabalho sério e crítico ao musicar, em 1965, a peça Morte e Vida Severina, sobre o poema dramático de João Cabral de Melo Neto. A tarefa exigiu mais de uma ano de trabalho e o resultado de tamanho esforço foi elogiado. Afinal, a peça venceu um festival universitário na França. As composições, porém, foram pouco divulgadas. Para a indústria de espetáculos, convinha que o grande público continuasse vendo em Chico o  rapaz tímido e nostálgico. Mas já em 1967 Chico Buarque começava - com Roda-Viva, no III Festival da Record - a desmistificar criticamente essa imagem. E, no início do ano seguinte, resolveu servir a si próprio (um fígado cru espremido em meio à platéia) para o público de Roda-Viva. Essa sua peça contava com a história de um rapaz que o show business transforma em ídolo, envolvendo-o em suas engrenagens, das quais ele só consegue se libertar pelo suicídio. A violência crítica do texto, associada à direção "revolucionária e desrespeitosa" de José Celso Martinez Correia, escandalizou os tradicionalistas, que reagiram: um grupo de extrema direita invadiu o teatro, destruiu os cenários e espancou os atores. O Chico "bonzinho" agonizava a olhos vistos. Ainda ganhava festivais com músicas bem-comportadas (como Sabiá, em parceria com Tom Jobim, ou Bem-vinda) e mantinha-se nas paradas do sucesso. Mas agora comentava-se abertamente que ele gostava de beber e vivia com a atriz Marieta Severo sem estarem casados. Antigos versos como "Diz que eu sou subversivo/ Um elemento ativo/ Feroz e nocivo/ Ao bem-estar comum", ganhavam novo sentido. Ainda em 1968, Chico resolveu sair do Brasil. A idéia inicial era morar três meses na Itália, devido a um acordo entre gravadoras para lançá-lo por lá. Contudo, acabou ficando mais de um ano. Foi na Itália, em 28 de março de 1969, que nasceu Sílvia, sua primeira filha. Depois, já de volta a seu país, teria mais duas meninas: Helena, nascida em 1970, e Luíza, em 1975. Chico Buarque voltou ao Brasil em 1970, com meio LP gravado, e aqui completou o trabalho. Afastara-se do samba tradicional, variando mais a linha das composições e revelando influências que iam desde a toada (como em Rosa dos Ventos) até o iê-iê-iê italiano (Cara a Cara, por exemplo). Quanto à temática, tratava de se desvencilhar explicitamente do lirismo nostálgico e descompromissado que antes parecera identificá-lo. Voltou-se para o sofrimento do povo, a partir de Gente Humilde (com Garoto e Vinicius de Moraes), e para o futuro, pois, "Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia". Esta composição, logo proibida, foi o primeiro sucesso de sua nova fase. Em fins de 1971, Chico Buarque concluiu outro LP, Construção, que trazia de forma madura sua nova proposta artística. No passado, o cotidiano excluía a poesia (base do lirismo nostálgico); agora, o dia-a-dia contém a poesia, o lirismo. As pessoas e o trabalho são belos em si - mas de uma beleza trágica, devido à pressão das instituições políticas e das convenções sociais. Coerente com sua nova música de confronto com as convenções e instituições, Chico se afastara da televisão e de qualquer outro esquema que lembrasse a Roda-Viva, o sucesso pré-fabricado. E, cerceado na discografia pela censura, procurou outras atividades onde pudesse se expressar. Apresentou-se como em Quando o Carnaval Chegar (1972), filme de Cacá Diegues para compôs várias músicas. Foi ainda o autor da trilha sonora do filme Vai Trabalhar, Vagabundo, de Hugo Carvana. De parceria com Ruy Guerra escreveu texto e música da peça Calabar ou O Elogio da Traição, cuja ação se passa no Brasil-Colônia, mas que representa uma fina e vigorosa crítica à acomodação e ao medo. A peça foi proibida, mas Chico pôde gravar um LP com algumas de suas músicas. A esse disco segui-se, em 1974, Sinal Fechado, no qual ele só canta composições alheias. Exceção feita a Acorda, Amor, sobre o medo generalizado à repressão policial, de autoria de um inventado Julinho de Adelaide. Ainda em 1974 lançou a fábula Fazendo Modelo. No ano seguinte escreveu, em parceria com Paulo Pontes, a tragédia greco-carioca Gota D'Água. Aliás, 1975 foi importante para Chico, que se apresentou com Maria Bethânia no Canecão carioca para comemorar os dez anos de carreira de cada um. O  espetáculo foi gravado ao vivo e lançado em disco, mas a música Tanto Mar, que festejava a independência de Moçambique, foi proibida. Após participar, em outubro de 1976, de um festival de MPB em Roma, Chico traduziu e adaptou o texto e a trilha do disco infantil I Musicanti, de Luiz Enríquez e Sérgio Bardotti. O disco seria lançado no Brasil em 1977, com o nome de Os Saltimbancos. Peça homônima também foi apresentada no Rio e São Paulo, com igual êxito.  No final de 1976, Chico lançara o LP Meus Caros Amigos, com participação especial de Milton Nascimento, que canto O que Será, música composta por Chico para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. No início de 1978, Chico participou do júri do Concurso Literário da Casa das Américas, em Cuba. Do primeiro país socialista do continente trouxe e gravou Pequeña Serenata Diurna, com compositor Silvio Rodríguez. Após um ano despendido entre ensaios, no dia 26 de julho de 1978 estreou a Ópera do Malandro, de Chico Buarque e Paulo Pontes, que fizeram jus ao Prêmio Molière como melhores autores teatrais. Chico, porém, não compareceu à cerimônia de entrega dos prêmios, em protesto contra a ação da censura, que proibira várias peças naquele ano. Seu LP em novembro de 1978 incluiu três composições anteriormente proibidas: Apesar de Você (1970), Cálice (1973, em parceria com Gilberto Gil) e Tanto Mar (1975). A partir de 1975, Chico deixou de aparecer profissionalmente no palco, mas tem participado ativamente de shows beneficentes, inclusive os de 1º de maio, cuja renda reverte quase toda para os movimentos operários. No final de 1979 somou a Os Saltimbancos, seu único disco infantil, o primeiro livro de sua autoria para crianças: O Chapeuzinho Amarelo, ilustrado por  Danteli Berlandis. Pouco depois foi contratado pela gravadora Ariola. Mas, em fins de 1980, ainda lançou pela Polygram, onde trabalhara nos últimos doze anos, o LP Vida, com músicas como Eu Te Amo (feita especialmente para o filme homônimo de Arnaldo Jabor), Bastidores e Morena de Angola. Na época, estreou em São Paulo Calabar ou O Elogio da Traição, finalmente liberada. No exterior, Chico participou da festa do Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português, e do projeto Kalunga, em Angola, apresentando-se, com mais 64 brasileiros, por todo o país. A renda dos shows foi destinada à construção de um hospital. Depois de um ano e meio de trabalho, em outubro de 1980 foi lançado o filme Certas Palavras com Chico Buarque, uma biografia do artista realizada pelo argentino Mauricio Berú. Essa discutida memória cinematográfica tem a participação - em números especiais ou depoimentos - de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Vinicius de Moraes (filmado, aliás, pela última vez), Toquinho, Francis Hilme, Ruy Guerra, Miúcha, Sérgio Buarque de Holanda e outros amigos e familiares daquele que foi considerado "unanimidade nacional" quando parecia acrítico; que o "símbolo da resistência à ditadura"; e que hoje (quando, como ele sublinha, "não temos um inimigo comum: há tons entre o preto e o branco") continua batalhando por liberdades e justiças sociais, como artista, sem um engajamento político-partidário. Em novembro de 1980, Chico foi entrevistado no Canal Livre, transmitido pela TV Bandeirantes de São Paulo. O programa causou muita polêmica nos jornais dos dias seguintes, pois se estabeleceu acirrada discussão quando o compositor denunciou a semelhança de resultados na ação de censura e da crítica, na medida em que esta confere status a determinadas músicas e destrói o trabalho de novos artistas, a quem devia dar "a maior força". Também em fins de 1980 estreou a peça Geni, um projeto de Marilena Ansaldi e José Possi Neto, em colaboração com Chico Buarque de Holanda e baseada na música Geni e o Zepelim, que ele escrevera para a Ópera do Malandro. Chico fez também duas músicas para a peça o Último dos Nukupirus, de Ziraldo Alves Pinto e Gugu Olimencha. Depois, participou juntamente com Sérgio Bardotti, Antonio Pedro e Tereza Trautman, do roteiro de uma produção milionária: o filme Os Saltimbancos, estrelado pelos Trapalhões.

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RODA VIVA

 
 

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